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segunda, 18 dezembro 2017 15:07

A perda na inocência

Falando do trabalho marcante de Bruce Brown e John Severson...

 

Surfing Hollow Days é um filme magnífico com uma narrativa sublime de Bruce Brown. Nele podemos apreciar o surfista Phil Edwars no primeiro filme com imagens de Pipeline.

  

Porém, foi o primeiro dos The Endless Summer que consagrou Bruce Brown como o melhor cineasta de surf de todos os tempos. Mike Hynson e Robert August parecem dois príncipes de calções a percorrer um verão interminável durante um ano, desde o Senegal à África do Sul passando pela a Austrália e finalmente o Havai.

 

A ingenuidade da sua câmara foi - e continua a ser - uma inspiração para todos nós. Bruce viajava, filmava, narrava e, sobretudo, fazia sonhar. Sonhar pela onda perfeita.

 

John Severson, por sua vez, teve um percurso não muito diferente. Desde muito cedo começou a pintar, atividade que adorava, principalmente o que conhecia e apreciava: o mar, a praia e os surfistas. 

 

 

Com uma câmara 16mm Keystone fez o seu primeiro filme no North Shore do Havai, percorreu a Califórnia em digressão a promover o filme e com o dinheiro realizado comprou uma Bolex para fazer mais filmes como o Surf Safari e Surf Fever.

 

Mais tarde, com vista a promover e divulgar os seus filmes, fez um álbum de fotografias com 36 páginas e intitulou-o de The Surfer. A publicação passou de trimestral a mensal, já convertido em revista, nascendo assim a bíblia do surf - a Surfer Magazine

 

“A busca pela onda perfeita deixou de existir, pois foram eles

que nos fizeram acreditar nesse mesmo ideal através dos seus filmes"

 

 

Depois disso, Severson vendeu a revista e comprou uma casa em Maui onde se dedicava à pintura, voltando para a Surfer alguns anos mais tarde, em 1969, para intitular duas páginas imperdíveis da revista intituladas de Surf Art. 

 

Tanto Severson como Bruce viveram o seu auge no pico da crise americana precipitada pela guerra no Vietname. Foi precisamente nessa altura que nasceu uma contracultura e uma rebelião crescente contra as normas convencionais da vida e da sociedade que acabaram por marcar as personalidades de Bruce Brown e John Severson, pois, por trás da paixão pelo surf havia uma ideologia e uma veia artística que os distinguia do surfista comum.

 

Ambos partiram este ano e vão fazer muita falta. Imagino os dois a filmar lá em cima, como um drone celeste a captar com simplicidade as ondas e os surfistas. 

 

Greg Noll, amigo de infância de ambos, bem o disse, os bons vão sempre embora, devia estar a pensar em tom de desabafo que foram eles a mostrar o surf na sua dimensão idealista e glamourosa à sociedade. Foram eles que projetaram a nossa cultura. Foram eles que ajudaram a mudar a imagem do surfista e, sobretudo, foram eles que nos ajudaram a sonhar. Isso não é pouca coisa.

 

Sem eles, a busca pela onda perfeita deixou de existir, pois foram eles que nos fizeram acreditar nesse mesmo ideal através dos seus filmes, das suas ilustrações, dos seus desenhos e da sua narrativa, como se o mundo perfeito existisse.

 

Sem John e Bruce morre uma época e acaba a inocência do sonho.

 

   Texto: Bernardo "Giló" Seabra

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