Patrícia Lopes, a primeira surfista português no Tour mundial. Patrícia Lopes, a primeira surfista português no Tour mundial. Foto: Arquivo Pessoal

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sexta, 02 fevereiro 2018 17:20

Patrícia Lopes: “Tudo se alcança com muito trabalho, persistência e ambição"

Falámos com uma das pioneiras do surf, detentora de 11 títulos de campeã nacional… 

 

Pode-se dizer que a Patrícia Lopes é recordista nacional, pois foi onze vezes Campeã Nacional de Surf Feminino. Em 2017 averbou um título especial à sua vasta e longa carreira, o de campeã de Surf Master Feminino conseguido em Ribeira d'Ilhas. Além disso, foi ainda Vice-campeã Europeia e terminou no Top 16 mundial por duas ocasiões. Definitivamente, uma das primeiras profissionais do surf português. 

 

Fala-nos um pouco de ti. Onde vives, como começaste no surf e se recordas a tua primeira competição?

Sempre adorei fazer desporto, pratiquei vários durante toda a minha vida. Adoro adrenalina e desafios. Não gosto de perder, nem a feijões e todos os desportos que pratico e que já pratiquei quero ser a melhor! Vivo na Parede, em frente ao mar e sou professora de Educação física na Escola Secundária da Madorna-Parede. Competi em surf durante 22 anos, desde os 18 aos 40 anos (2007). Comecei a surfar por influência do meu irmão Gonçalo [Lopes], uns anos depois de o ver surfar, resolvi experimentar e nunca mais larguei. O meu primeiro campeonato foi em São Pedro do Estoril, organizado pelo Surfing Clube de Portugal. Na altura o presidente era Antero Santos que organizava bastantes campeonatos. Durante anos tive que competir com os rapazes, pois não havia quase miúdas a surfarem e muito menos a competirem. 

 

"Eu viajava com o ordenado que ganhava como professora

e fiz o circuito mundial durante anos sozinha"

 

 

O que te levou a enveredar pela via profissional (no surf)?

Enveredei pela via profissional, porque como não tinha desafio em Portugal, quis evoluir e surfar com as melhores.

 

Competiste ao mais alto nível no circuito mundial durante muitos anos, numa altura em que o surf ainda não gozava da visibilidade de hoje em dia. Quais te parecem ser as principais diferenças para os tempos de agora?

Por não haver visibilidade quase nenhuma era muito difícil arranjar patrocínios monetários, só me davam material. Por ser mulher, ainda pior. No início, só ajudavam os homens em termos financeiros e um grupo muito restrito, os melhores, tipo os top 8. Eu viajava com o ordenado que ganhava como professora e fiz o circuito mundial durante anos sozinha. Era a única no surf português a fazê-lo. Acho que a grande diferença para agora, para além dos patrocínios que são muito melhores em qualidade e quantidade, são os treinadores que vieram fazer toda a diferença. Não só fizeram aumentar muito o nível de surf, como passaram a viajar com os surfistas dando-lhes um grande apoio a todos os níveis.  

 

Recordas qual foi a adversária do WT mais feroz e dura de superar?

As surfistas do top 16 e mais tarde WT mais difíceis de superar eram, nos primeiros anos, a Pam Burridge e a Wendy botha. Mais tarde a Layne beacheley e Lisa Andersen.

 

"Adorava ir ao Havai competir. Os melhores resultados

na minha carreira sempre foram com o mar grande"

 

 

Ainda relativamente a esses tempos de Championship Tour. Qual o campeonato que mais te marcou e guardas mais vivamente na memória? 

São vários, mas o que mais impressionou talvez tenha sido o da Ilha Reunião, em St. Leu, com 2/3 metros, esquerdas perfeitas, inside muito raso, recife de fora e cheio de ouriços. Cada onda era uma adrenalina e um desafio para não cair, porque uma ida aos corais era penosa! Numa queda, toquei ao de leve no recife e fiquei com o braço todo raspado.

 

Hoje em dia está tudo mais fácil e acessível, mas viajar há 20 anos atrás em busca de ondas e campeonatos nem sempre era pera doce (ainda não é!). Qual o país, que ondas e que momentos marcaram esses tempos de competição no World Tour?  

Adorava ir ao Havai competir, porque sempre gostei das ondas grandes. Aliás, os melhores resultados na minha carreira sempre foram com o mar grande. Gostei de competir em Jeffreys Bay, na África do Sul, onde apanhei boas ondas de 1,5 a 2 metros; Santa Cruz, na Califórnia, por serem só direitas parecidas com as ondas da Ericeira; e, por fim, o Brasil, não pelas ondas, mas pelo país, a comida, grandes amigos e compras. Nestes locais consegui obter os melhores resultados, como quintos e nonos lugares.

 

De uma forma geral, não só em Portugal mas no Mundo, como vês a evolução do surf? 

A evolução do surf é brutal a todos os níveis: nível de surf em ambos os sexos, a Internet veio revolucionar a comunicação e a transmissão dos campeonatos ao vivo, os treinadores, os patrocinadores, a existência de campeonatos em ondas cada vez com mais qualidade, etc.

 

“A Internet veio revolucionar a comunicação

e a transmissão dos campeonatos ao vivo"

 

 

A nível nacional dominaste de uma forma como nenhuma outra atleta o fez até hoje. O que te levou a tomar a decisão de abandonar o mundo competitivo?  

Primeiro deixei de competir no circuito mundial porque já não tinha hipóteses nenhumas; só perdia e deixei de ter motivação. Para além de uma nova geração que tinha entrado no tour com um nível de surf muito alto, em 2005, como a Carissa Moore, Sally Fitzgibbons, Coco Ho, Silvana Lima, etc. Depois, em 2007, deixei os campeonatos nacionais porque já nem dormia. Estava tudo farto que eu ganhasse sempre! Então, o julgamento nem sempre era imparcial e perdia injustamente, o que me deixava muito revoltada. Nas entrevistas faziam sempre a mesma pergunta: quando desistia de competir para dar lugar às mais novas! 

 

Mesmo assim, sentes que, de alguma forma, serviste de inspiração para as gerações futuras? 

Sim, sem dúvida. Vejo isso porque a maior parte da nova geração sabe quem eu sou e alguns fazem-me até perguntas de como eram as coisas no meu tempo de competição.

 

“Deixei os campeonatos nacionais porque já nem dormia.

Estava tudo farto que eu ganhasse sempre!"

 

 

Como olhas para o surf feminino nacional na atualidade? 

O surf feminino está cada vez melhor, mas ainda há poucas miúdas com bom nível internacional. Só temos três com resultados nos circuitos mundiais, uma delas é brasileira e duas juniores promissoras...

 

A teu ver, podemos sonhar com a entrada de uma surfista portuguesa no WT em breve?

Não sei se em breve, mas daqui a alguns anos sim.

 

Já agora, fala-nos do teu primeiro campeonato. Onde? Quando? Como correu?

O primeiro campeonato da minha vida, como já referi, foi em S. Pedro e correu bem, passei alguns heats com os homens. A nivel mundial, o primeiro campeonato em que participei foi em Huntington Beach, Califórnia. Foi nem 1990, o ano em que comecei a dar aulas de Educação Física. Depois participei nas etapas de França (Lacanau, Hossegor e Biarritz) e na última etapa no Havai, em Sunset Beach. Huntington correu muito mal: não tinha onde ficar, não conhecia ninguém e as ondas estavam péssimas. Perdi de primeira, claro. Na primeira noite dormi num motel com uns brasileiros que mais tarde me disseram para procurar outro sítio onde dormir. Depois de competir, encontrei na praia o Joe Veselko que tinha ficado em minha casa quando esteve em Portugal e alojou-me logo na casa da namorada que tinha na altura. A partir daí, conheci muitos surfistas que corriam o circuito e fiz grandes amizades com alguns. Comecei a viajar com eles e a dividir as despesas de alojamento, aluguer de carro, etc; passando a ser mais fácil viajar e mais tranquila a vida das competições.

 

“A Teresa foi a minha grande rival durante anos,

mas era uma rivalidade saudável e sempre fomos amigas"

 

 

Durante muitos anos verificou-se uma forte rivalidade com a Teresa Abraços que, diz-se por aí, ajudou à evolução de ambas. Fala-nos disso. 

Sim, a Teresa foi a minha grande rival durante anos, mas era uma rivalidade saudável e sempre fomos amigas. Os juízes, a Federação e os organizadores gostavam mais da Teresa porque ela é calada e nunca reclamava. Já eu, quando achava que algo era injusto ou faziam qualquer coisa errada, refilava logo e dizia em alto e bom som tudo o que tinha a dizer. Então, para ganhar à Teresa, tinha que surfar bem melhor. Quando era renhido, os juízes decidiam sempre a favor dela.

 

O Surf, de alguma forma, ainda faz parte da tua rotina? 

É claro que o Surf ainda faz parte da minha rotina. Surfo sempre que posso e está bom.

 

Por último, que conselho darias a uma jovem surfista cujo sonho é surfar ao mais alto nível e tornar-se atleta profissional? 

Que nunca desista dos seus objetivos, pois tudo se alcança com muito trabalho, persistência e ambição.

 

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