Joel Turpel fala da vida "on tour". Joel Turpel fala da vida "on tour". Foto: Arquivo Pessoal

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segunda, 22 janeiro 2018 17:15

Joe Turpel: “O Frederico beneficia do caminho que o Tiago já traçou”

Um exclusivo com um dos comentadores de serviço da World Surf League… 

 

Joe Turpel* é um rosto conhecido de todos aqueles que gostam de surf. Em todas as etapas, leva até aos fãs da modalidade aquilo que é a elite do surf mundial. Mas Joe Turpel é mais do que isso. A Surftotal esteve à conversa com uma das caras da WSL, que nos falou sobre as mudanças na temporada que aí vem, sobre Frederico Morais, e sobre aquele que é o melhor surfista da atualidade.

 

Como viu esta temporada? A corrida ao título, a lesão de Slater…  

Foi muito divertido acompanhar esta temporada. Houve grandes momentos que serão sempre lembrados na história do surf. Desde o regresso às vitórias de Owen no tour, ao domínio completo de John John em Margaret River, a nova abordagem de Filipe Toledo às ondas de J-Bay, Jordy a conseguir finalmente vencer em Bells Beach. Julian a mudar a combinação de Medina em 90 segundos e a roubar-lhe a vitória no Taiti, foi notável. Depois, ver o Medina a vencer o John John em França e a vingar-se do Julian em Portugal para vencer tudo na perna europeia. Foi muito emocionante para a corrida pelo título e para a história do surf. O John John pôde provar mais uma vez que é o melhor surfista do mundo. É algo que só alguns surfistas fizeram. Tínhamos quatro atletas ainda a correr pelo título no início de Pipe e isso mostra que ainda há muitos surfistas talentosos que podem tentar derrubá-lo. E está a tornar a corrida ao título ainda mais interessante. Foi muito complicado ver o Kelly passar por uma lesão tão grave nesta altura da carreira. Ele não conseguiu defender a vitória no Taiti e surgiram então questões sobre se se ia retirar. Quando apareceu em Pipe veio mostrar que ainda pode correr pelo 12.º título mundial no próximo ano. Todos os anos que temos o Kelly no tour, todos beneficiamos da sua presença.

 

Tornou-se numa das vozes mais icónicas do surf mundial. O que acha que ainda pode mudar nas transmissões? 

Obrigado. Acho que a tecnologia está sempre a melhorar e a WSL adora manter-se atualizada com todos os equipamentos mais recentes. As imagens de drone são as minhas favoritas. Novos ângulos para mostrar os melhores surfistas… estão a melhorar cada vez mais.

 

“Todos os anos que temos o Kelly no tour,

todos beneficiamos da sua presença"

 

- Em Jeffreys Bay. Foto: Trevor Moran 

 

Há já algumas mudanças no tour no próximo ano. Como olha para essas mudanças? 

As mudanças são grandes e é muito emocionante. Será incrível assistir a Keramas. O tour parou por lá em 2013 e o John John fez aquele enorme alley oop que ainda nos lembramos hoje. De certeza que vamos ver uma manobra diferente durante o evento no próximo ano, uma manobra que nunca vimos antes. Quanto ao Surf Ranch, é tão futurista. Tive a oportunidade de experimentar e comentar um evento de teste no Surf Ranch, em que Gabriel Medina e Carissa Moore fizeram as honras da casa. Foi incrível ver cada onda. Quando dás por ti estás a suster a respiração durante a sessão, porque é realmente intenso. O Surf Ranch realmente traz um novo elemento para o desporto. A maré nunca está errada. Não tens ondas que te chateiem. O Surf Ranch nunca estará «flat». Tudo vai depender do surfista. É um novo tipo de pressão que já deixou os campeões mundiais mais experientes nervosos como nunca antes estiveram.  

 

Como um rosto conhecido da WSL… o que lhe dizem as pessoas sobre essas mudanças?

Sim, comentam a toda a hora. Adoro que WSL tome decisões que levem o surf para novos lugares e plataformas. Adoro quando as pessoas me perguntam sobre as mudanças no tour. É o que mais gosto de falar. As pessoas perguntam quais os surfistas que serão mais favorecidos por um título em Keramas. Perguntam como é o Surf Ranch. Todas as perguntas que se esperam de um verdadeiro fã de surf.

 

- Com Martin Potter, numa pausa do World Tour. Foto: DR

 

Sei que o seu pai era nadador-salvador e surfista. Qual a sua primeira lembrança em relação ao surf? E, como seria a sua vida hoje se isso não tivesse acontecido? Qual seria o seu trabalho?

O meu pai é o meu herói. Sou quem sou por causa dele em todos os sentidos. A minha primeira memória de surf leva-me para Waikiki. Vivíamos em Oahu e o meu pai levava-me a mim e à minha irmã para a praia. Ele não era muito fã de competição, nem seguia a indústria do surf. Ele simplesmente amava o oceano. Sempre celebrou a onda. Amo sentir que em todas as ondas que apanhei com ele e com a minha irmã, o mais importante fosse surfar a onda em si. Ninguém se preocupava com o desempenho, mas sim em aproveitar a onda. Girava tudo sobre a emoção de simplesmente surfar a onda.

 

"Adoro que WSL tome decisões que levem o surf para novos lugares e plataformas"

 

- Na cerimónia final do Meo Rip Curl Pro. Foto: Masurel/WSL

 

Qual a melhor parte do seu trabalho? E a pior? 

Amo a transmissão. O sentimento que sentes quando entras em direto em todo o mundo… é algo especial. Sentes-te vivo. Eu gosto da sensação de trabalhar com uma grande equipa e ver a magia a desenrolar-se no programa. A parte difícil é a falta que sinto da minha família e amigos. No entanto, o pessoal do tour torna-se na nossa família e começas a perceber que tens  amigos em todo o mundo, que vês todos os anos. Então, a parte difícil é equilibrada com o aumento de pessoas bonitas fantásticas que acrescentas ao teu mundo.

 

Viajar faz parte do seu trabalho. Tem alguma técnica especial para fazer as malas? O que leva sempre na mala?  

Eu enrolo todas as minhas roupas, assim bem apertadas, para que caiba tudo na mala. O meu avô já o fazia quando estava na Marinha. Ele era comandante e deram-me um pequeno livro que ele costumava levar quando ia para o mar. O livro tem várias palavras de sabedoria, conselhos que lia frequentemente. Tenho-o sempre comigo. Às vezes, até o trago no bolso enquanto estou a trabalhar. Ao folhear as páginas, sinto a energia dele e do meu pai. O meu nome vem de ambos, pai e avô. Chamo-me Joseph Turpel III. 

Acontecem várias coisas engraçadas quando viajamos. Uma vez estava a voar para Londres e o jantar foi servido. Na minha mesa estava a comida, água e um copo de vinho. Eu estava no lugar do corredor e, no meio, estava um jogador de futebol vestido com fato e gravata. Ele era umas cinco vezes maior que eu. Tentei sentar-me no meu lugar para comer, toquei na bandeja, e a única coisa que caiu foi o copo cheio de vinho tinto. Caiu no chão, mas, sabe-se lá como, foi sujar a roupa impecavelmente branca do homem ao meu lado. Deve ter sido a primeira vez que fiquei sem palavras. Lá me desfiz em desculpas e o homem começou a rir-se tanto bem como todos à minha volta. Estava rodeado de estranhos e não parámos de rir o voo todo. Os comissários de bordo limparam a camisa e ofereci-me para a pagar. Então começou tudo a rir de novo. Foi a melhor reação possível. Graças a Deus, ele tinha sentido de humor.
 

"Se ele [Kikas]  for mais inovador no próximo ano,

estará facilmente entre os dez melhores"

 

- Bons momentos e camaradagem com Strider Wasilewski. Foto: Arquivo Pessoal

 

O que pensa de Frederico Morais e do primeiro ano dele no tour? Quais são as principais diferenças entre ele e Tiago Pires? 

Antes de Snapper começar, fui jogar golfe com o Fred Pattachia Jr. e estávamos a fazer as nossas apostas para rookie do ano. Apostei no Frederico. Ele é tão sólido e confiável. Ele não age nem surfa como um estreante. Já ganhou uma grande reputação com tudo o que fez como wildcard no passado. Então senti que ele traria a mesma qualidade ao tour. A maior arma dele é definitivamente a cabeça. Ele é tão confiante e inteligente. Ele consegue criar um plano e cumpri-lo à regra. Tem muito espaço para crescer em Pipe e no Taiti. Se ele for mais inovador no próximo ano, estará facilmente entre os dez melhores. O Frederico deve estar muito orgulhoso deste ano de rookie. Tirou do caminho alguns grandes nomes, incluindo o John John Florence. Quanto ao Tiago, ele preparou o caminho para o Frederico Morais e para Portugal. Sei que o Kikas aprendeu muito com o Tiago. Ambos têm uma sólida batida de frontside. Acho que a principal diferença é que o Frederico beneficia do caminho que o Tiago já traçou. Tem mais recursos, não tem uma curva de aprendizagem tão grande a percorrer e por isso adaptou-se bem ao top 34.

 

Portugal já está inteiramente no mapa de surf. Essa evolução era esperada? 

Penso que, quando visitas Portugal e percebes quantas ondas maravilhosas existem, percebes como é um sonho para os surfistas de classe mundial e para a WSL fazer etapas frequentes e coroar campeões em todas as categorias. Desde os juniores, ao longboard, a eventos de qualificação, ao Big Wave Tour e ao Tour Championship. É dos poucos países que pode receber todas as competições. Assim, ainda cresce mais a comunidade de surf e dará a Frederico a companhia de mais portugueses no top 34.

 

- Além de comentador, Turpel é ainda um surfista de dotes elevados. Foto: WSL

 

Quem acha que é o surfista mais completo hoje em dia? 

John John Florence. Ele venceu o evento Eddie Aikau na Baía de Waimea com ondas de 12 metros e venceu no Brasil com ondas de meio metro alguns meses depois, tudo no mesmo ano em que ganhou o primeiro título mundial. Não tem pontos fracos e define como objetivo ser o melhor na ondas grandes, nos tubos, nos voos… É bicampeão do mundo e a cada ano está ainda melhor. 

 

* Joel Turpel é um dos comentadores fixos da WSL, juntamente a Ronnie Blakey, Strider Wasilewski, Rosy Hodge, Peter Mel, Martin Potter, Bartin Lynch e Kaipo Guerrero. 

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